Tem alguma coisa errada com a História…

… ou com nosso ponto de vista

Dominou-me aquele estupor que é próprio dos prodígios. Elevei, pois as mãos para cima dos olhos, buscando minorar os efeitos da forte luz. Como ao se refletir em água calma ou em espelho um raio de luz toma direção oposta, de modo que o ângulo de incidência é igual ao de reflexão - conforme ensinam ciência e experiência -, assim me parecendo ter a vista ferida por luz refletida, desviei o olhar.

Dante Alighieri, A Divina Comédia (grifo meu)

O comentário em negrito do texto acima me chamou a atenção enquanto lia “A Divina Comédia”, já no canto XV do Purgatório. Assim pensei “Uai, o Dante não viveu no meio da Idade Média inculta? Como ele pode citar a ciência e a experiência assim?” e lembrei que um dia na sala de aula me disseram que o termo “Idade Média” foi cunhado pelos renascentistas soberbos e críticos do período medieval (se vocês não se lembram, o termo “Idade das Trevas” também já foi usado para referencia esse período - buscar por “Idade das Trevas” na wikipedia te leva para o artigo da Idade Média), que queriam romper com qualquer ligação com o período anteriormente vivido.

Bom, o motivo do meu espanto é simples: Quando alguém deseja classificar uma idéia conservadora de maneira pejorativa, pode usar o termo “medieval”, que normalmente quer dizer que o dono da idéia não pensa muito por si só, aceita comentários de outros e, em grande parte, influenciados pela Igreja.

Então, buscando sanar uma dúvida, fiz uma busca na wikipedia para ver o que falavam sobre a Idade Média. Eis um parágrafo sobre o desenvolvimento tecnológico medieval:

A tecnologia das grandes navegações permitirá em séculos futuros a descoberta de um número extraordinário de novas espécies de animais e plantas, além de novas formações geológicas e climáticas. Os avanços obtidos na óptica logo iriam gerar aparelhos como o microscópio e o telescópio, que, juntamente com a prensa móvel, (outro fruto medieval), são vistos como os equipamentos mais importantes já criados para o avanço do conhecimento humano. Mas a herança mais importante do período provavelmente foi o nascimento e multiplicação das universidades, juntamente com o surgimento das primeiras sementes da metodologia científica contemporânea.

Aí alguém pode chegar e dizer que Dante viveu no período da Baixa Idade Média, mais desenvolvida tecnologicamente. Afinal, apenas um século e meio depois da escrita da Divina Comédia, a Idade Média conheceu seu fim com a queda de Constantinopla. Mas aí eu cito a wikipedia mais uma vez, dessa vez citando um parágrafo sobre a filosofia:

A questão chave que vai atravessar todo o pensamento filosófico medieval é a harmonização de duas esferas; “a fé” e “a razão”. O pensamento de Agostinho, (século V), reconhecia a importância do conhecimento, mas defendia uma subordinação maior da razão em relação à fé, por crer que esta última venha restaurar a condição decaída da razão humana. Já a linha de Tomás de Aquino (século XIII) defende maior autonomia da razão na obtenção de respostas, apesar de não negar tal subordinação da razão à fé.

Ou seja, esse lance de que o homem medieval era total e completamente subordinado intelectualmente à Igreja ou à sua religiosidade é meio que um blá blá blá quase folclórico a fim de esculhambar com esse período europeu.

Obviamente eu não sou historiador e posso estar falando um monte de besteiras, mas gostaria de continuar com meu raciocínio sobre os servos:

Eu até concordo que o homem médio da Idade Média pudesse ser totalmente alienado e vivesse apenas para trabalhar (eufemismo para servidão), então alguém iria alegar que o homem médio, portanto, vivia à mercê da Igreja, dos senhores feudais e não pensava nem um pouco. Mas agora eu pergunto: Quão diferente esse quadro é do Brasil de hoje?

Acho que ontem eu vi em algum lugar que existem quatro milhões de brasileiros cursando o ensino superior, isso dá 2,13% da população brasileira segundo a estimativa da população para 2007 e 2,36% segundo dados do censo de 2000 (dados do artigo sobre o Brasil). Acho que é razoável afirmar que a população cresce numa taxa maior que a de oferta de vagas no ensino superior, logo a tendência desse número é diminuir. Acho que é razoável chutar que 60 milhões de brasileiro têm ensino superior, isso dá um terço da população. Agora vamos assumir que todos os brasileiros com ensino superior pensam por eles mesmos (o que eu acho que é mentira, mas como isso leva a uma discussão altamente subjetiva, eu vou deixar isso de lado, até por que há alguns sem ensino superior que “pensam” muito mais que outros “dotôres”)… Logo, temos aproximadamente 70% da população brasileira fora do ensino superior…

… Eu me lembro de ter ouvido em algum lugar uma estatística que dizia que o Brasil possui 40 milhões de miseráveis e os miseráveis estão mais preocupados com sua sobrevivência que com pensamentos transcedentais ou científicos. Então temos, dos 120 e poucos milhões de brasileiros, 40 milhões de miseráveis e mais os muitos outros que lutam para sobreviver e nem tanto para desenvolvimento tecnológico ou mental ou espiritual. Minha conclusão, portanto, é que o Brasil ainda vive a Idade Média segundo as métricas das pessoas que acham a Idade Média um período sem desenvolvimento intelectual onde havia uma maioria esmagadora de dominados sem independência intelectual.

Agora, defendendo os historiadores, eu tenho a impressão que eles não estão errados, já que o artigo da wikipedia não cita alguns dos comentários preconceituosos que eu já li e ouvi (nota para aqueles que criticam a qualidade da wikipedia: um estudo de não lembro quem revelou que pessoas que não sabem nada sobre determinado assunto desconfiam mais de artigos da wikipedia que especialistas naquele assunto, o que mostra que normalmente os ignorantes desconfiam mais - sem razão - dessa maravilhosa fonte de conhecimento construído colaborativamente) sobre a Idade Média. Só pode ser, portanto, que nosso ponto de vista é que está distorcido para que acreditemos que a Idade Média foi um período de trevas intelectuais.

Então, viva o saber medieval!

Ah propósito, estou adorando “A Divina Comédia”, eu devia ter lido antes…

PS: Eu já conhecia um pouco (bem pouquinho) da filosofia de Tomás de Aquino e achava que ele estava deslocado da Idade Média, agora acho menos isso.

PPS: Acho que eu e um bando de doidos que conheço, membros do Ministério Universidades Renovadas são medievais também, inclusive o João Paulo II (e a Igreja Católica?), já que todos acreditamos na união da fé e razão. :)

3 Respostas para

  1. Gravatar Julia diz:

    haha - boa!
    as descobertas científicas não param mesmo!, nem na “nossa” idade média… muito menos na deles :)

    e gente alienada também existirá sempre..

  2. Gravatar Renato Trovão diz:

    Ah, Julia, que isso é verdade não há sombra de dúvidas, mas a questão aqui é que a quantidade percentual de gente alienada hoje até pode ser tão grande ou maior que a da idade média. Mas a verdade é que quanto a isso não podemos ter certeza.
    Então continuamos curtindo a modernidade… :)

  3. Gravatar rhaissa diz:

    eu espero que sim que esta questão chave passe dos conhecimentos do filosofos, pois a esperiencia dos filosofos pra mim foi a maior de todas, agora só espero pra ver se essa questão chave realmente vai acontecer

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