Dia desses, enquanto folheava a edição 2063 da revista IstoÉ, me deparei com um anúncio da EMPROTUR[1] que chamou minha atenção não pelo conteúdo, mas pela forma[2].
A questão é: me ocorreu que o texto parecia estranho, com alguns caracteres claramente se sobrepondo e sem ligaduras. Se eles tivessem usado uma fonte qualquer, esses erros provavelmente passariam despercebidos, mas eles usaram a Zapfino, que é uma fonte elegante, rica em variantes e em ligaduras.[3]
Para investigar minha hipótese de que o trabalho deles poderia ter sido melhor, resolvi ver o que conseguia fazer sem esforço no XeTeX[4] e, apesar de ter gerado o texto anúncio inteiro, o resultado exibido na figura abaixo compara apenas a palavra “férias”.
Na figura, o texto à esquerda foi o gerado pela EMPROTUR e o à direita gerado pelo XeTeX. Para mim, é claramente perceptível que o da direita é mais bonito[5] que o da esquerda. Como é possível que eu, que não tive qualquer treinamento formal (ou que sequer conheço a teoria) pude gerar em poucos minutos um texto mais bonito que o de (espero) publicitários? O que eu posso supor é que:
- Eles não estão nem aí.
- Eles não sabem como fazer.
- Mandaram um pobre estagiário se virar.
A suposição 3 pode ser reduzida à 1. Logo, os publicitários em questão não estão nem aí, ou não sabem usar a ferramenta que lhes foi entregue. Seja qual for a resposta, parece coerente citar o Roberto Shinyashiki, que uma vez disse que “ao Brasil falta competência e não auto-estima“. Pois, com um esforço mínimo, eles conseguiriam elevar bastante a qualidade do anúncio.
O problema todo é que esse é um tema recorrente para mim. Vira e mexe vejo anúncios com erros ortográficos, jornalistas e publicitários sem a mínima noção de como funciona o projeto e desenvolvimento do leiaute de um site querendo dar pitaco em tudo e, como exemplificado neste ensaio, sem saber como usar bem uma ferramenta aparentemente essencial para o trabalho deles[6].
Mais do que simplesmente reclamar, eu gostaria de entender a causa do problema. Estará ela nas escolas de comunicação[7], na maldição cultural do jeitinho brasileiro ou nos profissionais de comunicação[8]? Eu não sei a resposta, mas chutaria que o regular já está de bom tamanho para a maioria.
Notes
- Obviamente eu não tenho nada contra a EMPROTUR, simplesmente aconteceu de eles fazerem um anúncio ruim. ↩
- Página 75 - O anúncio trata de como Natal é um bom destino para as férias. ↩
- O espaçamento nem depende tanto da fonte, já que (assumo que) qualquer aplicação que se preze possui algum suporte a ajuste de kerning. ↩
- Para saber o que é possível fazer com esforço, confira http://www.tug.org/TUGboat/Articles/tb24-2/tb77adams.pdf ↩
- Eu não acredito tanto na relatividade da beleza. ↩
- E eu sequer sou comunicólogo. Eles estudam literatura, arte, tipografia e mais. Para mim, eles não têm desculpa. Eu aprendi HTML em 1998, na oitava série, corrompido pelo meu amigo e ex-sócio Léo Carraretto. Tem uns caras por aí que sequer pensam em separar conteúdo de formatação. ↩
- Há quem diga que, ao menos nos EUA, a faculdade “is all about drinking” - acho que li no blog do Bruce Eckel ↩
- Isso é uma generalização, o Brasil está cheio de ótimos profissionais de comunicação, mas infelizmente ainda há mercado para os nem tão bons. ↩
